A notícia da despedida de Nádia Rebouças, uma grande mentora e impulsionadora de carreira, me chegou preparando a mala para dar uma palestra fora do Rio. Lembro de ter sentado na beirada da cama repassando um monte de momentos que vivemos juntas – o processo de rebranding do hoje Fundo ELAS, as consultorias que cocriamos, a indicação para a primeira conversa no Green Nation. Veio tudo de uma vez e acoplado de um imenso calor no peito, um sentimento de vida vivida.
Fiz a mala, segui para o destino daquela apresentação, mas havia algo que eu não conseguia entender bem: o que acontece quando os nossos mentores envelhecem? Como a gente lida com isso? Celebrando suas histórias? Agradecendo pelo aprumo e pela dedicação em nos tornar outros? Mentorando também? E será que tudo isso é suficiente para celebrar a magnitude do impacto que tiveram em nossas vidas? Na minha vida, em tudo o que eu sou hoje como profissional, mas especialmente como ser?
A estrada passava de um lado enquanto eu lembrava da quantidade de papos que tive na graduação da Gama Filho, há mais de vinte anos, com o Luis Alberto Sanz e o quanto isso ampliou meu muito limitado repertório, me abrindo janelas e me escancarando percepções de um mundo que eu nunca havia sequer imaginado e que se tornou plenamente possível.
Recordei da Iara Cruz sentada ao meu lado na TV Gama, me ensinando a mapear a cidade inteira com o catálogo telefônico e o telefone fixo. E me dando bronca porque sabia que, se cavasse mais fundo, eu poderia ser mais, mais até do que os sonhos modestos que eu tinha na época eram capazes de me levar. E o quanto os dois brigaram pela bolsa de estudos que não me deixou abandonar a faculdade quando tudo parecia impossível.
Lembrei da Carla Rodrigues me descobrindo na pós-graduação e abrindo o portal do Terceiro Setor, fonte contínua de muitas oportunidades. Da Amalia Fischer e da Madalena Guilhon carimbando meu passaporte, me formando como ativista, como feminista, como comunicadora internacional. E acreditando que uma porquinha de plástico poderia se transformar numa exposição, o que aconteceu mesmo.
Recordei estes momentos com todos eles. E lembrei de nossos últimos encontros neste tempo de agora. Alguns, uma mensagem no WhatsApp, como foi com Nádia, uma reportagem que havia visto sobre a graúna do Henfil e que havia mostrado para a Antonia. Outros um samba pós-pandêmico de 80 anos como foi com a Iara. Ou os esbarrões casuais que tenho com a Madá por morarmos no mesmo bairro.
Momentos ridiculamente simples para a grandeza do impacto que tiveram na minha vida. Talvez, eu nunca consiga colocar em palavras e em ações a gratidão que tenho por cada um deles. Talvez, eu nunca impacte a vida de alguém como eles impactaram a minha. Mas, sei que, do lado de cá ou de lá, eles estão me vendo lutar minhas lutas, perder e ganhar minhas batalhas, acertar e me estrepar, mas com o que me ensinaram impressos em quem eu sou sempre e para sempre.
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